quarta-feira, 8 de julho de 2026

A Restauração, finalmente

Temos connosco a Monarquia, por fim! A GN(R?) aderiu ao Movimento. E, logo para mostrar serviço, deteve um gang que, munido de martelos, assaltava idosos em Olhão.
Olhão... -  que bem merece o seu nome completo: Olhão da Restauração.
Nota: fotografia absolutamente fidedigna, colhida na televisão às 14:00, com as bandeiras da Fundação e de Portugal já no seu local próprio. 

 

Erros

Pela enésima vez, vi de raspão um título que dizia que a FENPROF defende que o Ministro da Educação não tem condições para continuar ministro.

Como todos sabemos, isto é o costume, de cada vez que há um problema, seja no Ministério da Educação, noutro ministério qualquer, num clube de futebol, na selecção, a resposta padrão é esta: cometeu um erro? Rua!

A quantidade de comentadores de futebol, que nunca treinaram uma equipa (o que inclui, por exemplo, Ricardo Quaresma) mas que têm a certeza de como o seleccionador nacional deveria ter conduzido as coisas, é extraordinária.

Mas é igual se passarmos do comentário e jornalismo desportivo para o comentário e jornalismo político, ontem ouvia uma jornalista a ter a certeza de que o ministro da educação tinha errado em ter tomado a decisão de digitalizar a correcção dos exames sem ter a certeza de que corria tudo bem, um comentário que mais do que dizer alguma coisa do ministro diz que a jornalista nunca geriu nada e, portanto, não faz a mínima ideia de que todas as decisões que se tomam, sobretudo em processos complexos, mas mesmo nos outros, tomam-se com a informação que existe e contêm riscos.

A alternativa à decisão não é uma decisão melhor, a alternativa à decisão é a não decisão.

O que me espanta neste barulho mediático à volta de qualquer problema é a intolerância em relação ao erro e que a FENPROF não saiba que ministros que cometem erros são muito melhores que ministros que nunca cometem erros, porque a única maneira de não cometer erros é nunca decidir nada.

São muito raros os erros que implicam mudar de ministro, erros como os que aconteceram com os exames permitem que os ministros passem a ser muito melhores ministros.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Outra "Trampalhada"

É notícia, por meios não totalmente esclarecidos, o velho Donald lá conseguiu que um jogador influente - Balogun, de seu nome, -  na equipa norte-americana no Mundial de futebol, penalizado com um cartão vermelho no anterior jogo, visse relevada a sua falta e, consequentemente, pudesse alinhar contra a Bélgica nos quartos-de-final.

Julgo que Trump nunca soube antes da existência do Soccer. É excessivamente primário para, até agora, não ter ido além do futebol americano e do beisebol. Mas a "Copa" ter-lhe-á levado ao conhecimento o futebol praticado no mundo inteiro, maxime na Europa, América do Sul, Ásia e África. São povos a mais em competição e Trump acordou - Não, não podemos perder...

Porque todo o discurso da besta vai no sentido de uma Nação superior, o que ficou bem patente no transacto 4 de Julho.

Se os EUA ganharem à Bélgica colocam-se na rota das meias-finais, vale dizer, de um (quase) lugar no pódio. O que muito serve ao pretenso "nacionalismo" do inchado Donald.

Tudo já é muito mau. E faz lembrar - o que é pior - os esforços nazis para, nas Olimpíadas de 1936, afirmarem a superioridade branca sobre as outras raças. Desfeiteou-os o negro Jesse Owens - por sinal um norte-americano - na corrida pedestre que venceu e em que, por isso, os humilhou.

São as reviravoltas do mundo... Mas acredito Trump tenha por objectivo ganhar o Mundial. Procedendo em conformidade. Sendo certo que a selecção americana, em princípio, não tem pernas para lá chegar (ao pódio), resta especularmos qual a reacção do cenoura-amarelada que está lá em cima, mas já remexe o cá-em-baixo.

domingo, 5 de julho de 2026

"Serve-se morto"

O título deste post é o último verso da "Receita para fazer um herói", de Reinaldo Ferreira, e lembro-me frequentemente dele, deste verso final, quando começo a ouvir os excessos retóricos sobre o heroísmo dos bombeiros que são frequentemente usados para disfarçar o facto da doutrina portuguesa de gestão do fogo ser a clássica opção pela extinção rápida, na variante que posiciona água nas estradas, quando falha o primeiro ataque.

Nenhum general, nenhum comandante, nenhum instrutor de tropas especiais quer fazer dos seus homens heróis, todos eles reconhecem a brutalidade do verso de Reinaldo Ferreira e do que os generais precisam é de soldados vivos, ninguém ganha guerras com heróis mortos.

Pelo contrário, uma das linhas mais duramente aplicadas na instrução militar é exactamente a ideia de que o grupo é incomparavelmente mais importante que o indivíduo e que qualquer desvio do indivíduo em relação às ordens que tem, pode pôr em risco todos os outros.

Se já me parece excessivo insistir em pedir a quem se disponibiliza para fazer o esforço e o correr o risco associado ao combate aos fogos mais que aquilo que podem dar, acho imoral usar a retórica sobre o seu heroísmo para disfarçar o facto de haver muito menos combate ao fogo florestal do que devia, substituído pelo posicionamento de meios para defender casas, pessoas e infraestruturas.

Heróis, por muitos que sejam, não podem compensar os estragos causados por maus generais que aplicam doutrinas erradas de abordagem ao problema.

Domingo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 

Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado. Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve». 

Palavra da salvação.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Velhas histórias

Em 2016, houve uns grandes fogos ali pela serra da Freita e Caramulo e, depois, a Montis organizou uns passeios do fogo com pessoas que realmente podiam ajudar a compreender o fogo e o seu papel ecológico fundamental.

Nem um jornalista, nem um decisor político apareceu, os passeios só serviam para aprender, e isso é uma actividade com pouca utilidade política e jornalística.

Eu próprio escrevi um artigo no Observador em que dizia que uma situação como a de 2003 e 2005 era uma questão de tempo (reforço que o artigo é de 2016, anterior aos fogos de 2017) "Há anos que esta é a doutrina dominante, mas dois dias de vento Leste fraco deram uma pálida imagem do que será a catástrofe a que nos conduzirá esta opção quando voltar a haver, com em 2003, dez a quinze dias de vento Leste forte a muito forte. O facto de haver muitos anos em que essas condições se verificam muito raramente não nos deveria fazer esquecer que podem acontecer em qualquer ano. E nessas condições meteorológicas, com o combustível acumulado que temos hoje nas nossas paisagens, a probabilidade de escapar de uma tragédia é baixíssima".

Em 2017 (ou princípios de 2018) o então presidente de câmara de Vouzela convidou meia dúzia de pessoas para lhes perguntar o que fazer depois dos fogos de 2017, que atingiram duramente Vouzela, em Outubro.

Lembro-me de na altura lhe ter dito o que pensava (e penso): o fogo tinha posto à vista e acessíveis um conjunto de caminhos muros e outras infraestruturas da antiga paisagem que poderiam ser uma base barata e facilmente gerível para um programa sistemático de fogo controlado, ao permitir gerir de forma barata linhas de ancoragem dos fogos, desde que se cuidasse da sua manutenção com esse objectivo, nos cinco anos seguintes, para depois começar a queimar à medida que o combustível se ia acumulando por falta de gestão.

Obcecado com os eucaliptos - o que verdadeiramente tinha interesse político (embora nenhum interesse para o assunto) - a minha sugestão caiu em saco roto, ao ponto do então presidente de Câmara, actual secretário de Estado das florestas, ter convencido uma direcção da Montis mais recente a não executar um fogo controlado que estava programado para uma propriedade sob gestão da Montis, com os costumados e estafados argumentos de se que se arranjariam uns sapadores para fazer a gestão de combustíveis (multiplicando por cinco o custo, pormenor que evidentemente é sempre omitido).

Agora arde outra vez em Vouzela e diz-me quem percebe do assunto que o fogo que se desenvolveu como um charuto direitinho sob a influência do vento NE constante (sem que o combate consiga influenciar nada, como seria de esperar) e que o flanco de mais de vinte quilómetros vai passar a cabeça do incêndio esta tarde, quando o vento mudar para Norte (por mais que o Senhor Ministro da Administração Interna venha com a conversa do costume sobre fogo posto e trabalho heroico dos bombeiros, heroico será, mas competente, manifestamente, não é).

Dizem-me que é o Caramulo que vai arder todo, se estas variações meteorológicas se confirmarem (de maneira geral confirmam-se, as previsões meteorológicas de menos de 48 horas são de grande fiabilidade).

Eu não sei, estou como o Sócrates, o legítimo: só sei que nada sei.

Já é saber muito mais que o que sabe uma esmagadora maioria de comandantes de bombeiros que comandam combates a fogos com a doutrina que António Gedeão definiu tão bem sobre Quixote: "Vê moinhos? São moinhos. Vê gigantes? São gigantes".

Eu não passo de um pobre Sancho Pança, cada vez mais velho, cansado e pançudo.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A história do Mundo em seis parágrafos

Expulsa do Éden, a humanidade viu-se outrora escrava dos elementos. Nascemos para a História receosos da criação, desconfiados do próprio olhar, com a consciência de si a erguer-se como o prenúncio de uma tragédia. Foi a necessidade que nos obrigou a interpretar o mundo: olhámos em redor para nos defendermos da violência da natureza, da nossa própria, tentando, a cada passo, iludir tanta precariedade.

Mas nesse esforço de sobrevivência deu-se o milagre. Ao olhar para fora para identificar as ameaças, o Homem descobriu também a Beleza — esse lugar misterioso onde Deus se escondia. Seduzido por esse reflexo do divino, fortificou progressivamente a sua ideia de individualidade. Um sentido de si que o olhar de Cristo consolidaria, mais tarde, na noção de Livre-Arbítrio e na ideia de que cada um é uma criatura singular, divinal e dramática.

Este longo percurso espiritual e estético reflectiu-se, como não podia deixar de ser, na forma como nos expressamos. Da literatura à pintura, passando pela música, testemunhámos a passagem do formalismo medieval para a exacerbação das paixões, dos desejos e das frustrações humanas. Durante séculos, celebrámos a genialidade com que o artista ia submetendo a realidade à sua recriação.

O problema começou quando decapitámos a transcendência. Da recriação artística ao autoconvencimento da supremacia do olhar de cada um sobre a realidade foi um pequeno passo – veio com o domínio da técnica e das ciências. Submetido às emoções e movimentos psicológicos, fixado na sua auto-suficiência, o "eu" arvorou-se num fim em si próprio. E, nesse processo, a beleza e a bondade foram caindo em desuso.

Hoje, já não interessa o que as coisas são, mas sim como cada um as sente. O novo evangelho resume-se a "ir aonde te leva o coração". Desligado dos outros e da História, o indivíduo contemporâneo descarta o compromisso em troca do efémero. Julgamo-nos todos filhos únicos, frutos de uma qualquer geração espontânea onde tudo se relativiza em nome das sensações, de uma "experiência" ou de um estado de espírito passageiro. O Amor transformou-se em auto-estima e noutras balelas psicológicas. A própria Arte, desprovida de exigência ou de busca pela verdade, foi democratizada ao ponto de se confundir com a banalidade. É a "assinatura" esborratada num monumento secular onde se lê, com orgulho analfabeto, um qualquer “All you need is love”. Se tudo é arte, nada o é; se cada opinião ou perspectiva tem o mesmo peso face ao real, a verdade deixa de existir.

Aqui chegados, corremos o risco de definhar à beira do rio: arriscamo-nos a tornarmo-nos narcisos estéreis, hipnotizados ou acabrunhados com o próprio reflexo, enquanto a corrente da História flui vazia. Afinal, a vida são só dois dias e amanhã é o fim do Mundo.

Ou talvez ainda sejamos salvos pela Inteligência Artificial, com o riso de Deus…

(texto reciclado)

O sexo e a maternidade

Longe de mim negar a estreita relação entre sexo e maternidade, o que me interessa é apenas fazer notar que o que é muitas vezes descrito como uma diferença entre mulheres e homens, nomeadamente a diferença salarial, tem muito menos relação com o sexo e muito mais relação com a maternidade.

Claro que isso depende das culturas e dos países, mas nos países ocidentais a diferença salarial entre mulheres e homens é hoje bastante mitigada, nos grandes números (há profissões específicas em que os homens ganham mais, em média, e outras em que as mulheres ganham mais, em média).

O que parece acentuar diferenças é a maternidade (ver Claudia Goldin, em caso de dúvidas), mas como só há mães que sejam mulheres, é frequente a confusão que permite atribuir à condição de mulher coisas que são, essencialmente, dependentes da condição de mãe.

Estritamente do ponto de vista do mercado laboral, poder-se-ia dizer que é provável que, do ponto de vista remuneratório e de dificuldade de carreira, uma mulher mãe esteja mais próxima de um homem que decide acompanhar o pai com Alzheimer, que de mulheres sem filhos.

É uma observação simples, provavelmente sem grande interesse, o problema está em que a desvalorização social da maternidade, e a hipervalorização da carreira, condicionam políticas públicas que em vez de terem como objectivo garantir a igualdade entre mulheres e homens (um objectivo social meritório, mas grandemente alcançado), deveriam ter como objectivo aligeirar o peso e o custo que a maternidade representa profissionalmente para uma mãe.

E, ideologicamente, é fortíssima a oposição à ideia de que realmente há diferenças entre homens e mulheres, uma das quais o efeito profissional da maternidade, que não só é ineficaz tentar anular, como nos desvia do essencial: se o Estado, os políticos e os eleitores não querem estar quietos em relação a essa diferença, ao menos que não confundam a necessidade de olhar para a maternidade num contexto profissional como uma mera sub-secção da grande luta das mulheres.

É para a maternidade que vale a pena olhar, de maneira geral as mulheres são capazes de tomar conta delas sem precisar de ninguém, não precisam de políticas para se impor profissionalmente, embora as que são mães agradeçam que se reconheça o valor social da maternidade.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

O fino verniz da civilização

Hoje estive no Observador e não foi a falar de fogos, mas sim por causa do que escrevi sobre família e carreira.

Algures, a propósito da discussão clássica sobre o que é genético ou cultural, trazida por Helena Garrido, eu repeti um argumento velho e relho: o cérebro é um orgão biológico e, consequentemente, resulta da evolução biológica e está adaptado para produzir o resultado esperado que permite essa evolução: sobreviver para que se possa transmitir a informação genética à geração seguinte.

Patrícia Fernandes achou que havia uma contradição em eu dizer que tudo resulta da liberdade individual e, ao mesmo tempo, dizer que tudo resulta de factores biológicos anteriores.

O argumento é bom, não gostei da forma como respondi, preferia ter sido mais claro: um fino verniz da civilização existe na dependência de factores culturais, e tem efeitos reais, mas é uma fina camada de verniz sobre a bruteza biológica que também nos define.

Dizer que a posição da mulher na sociedade é uma criação cultural, que em parte é, não significa que então podemos fazer uma criação cultural alternativa à nossa escolha, porque essa criação cultural, para existir e ter expressão muito alargada, tem de respeitar a natureza do bicho que somos.

Não há nada na evolução biológica que sugira a existência de cintos de castidade, que são uma criação de um ambiente cultural concreto, mas há muito de evolução biológica no medo masculino de que o filho seja do padeiro, sobretudo num ambiente cultural em que a transmissão de riqueza e estatuto social dependia essencialmente do berço em que se nascia.

A forma como diferentes sociedades lidam com esse medo é cultura, a existência desse medo é também natureza selvagem, sem cultura.

A liberdade individual decorre do fino verniz de civilização - parece também ser por escolha social que nos afastamos da lei do mais forte, substituindo-a por leis de que resultam grupos mais fortes - mas a construção desse fino verniz de civilização é, em grande medida, resultado da forma como o cérebro evolui para nos ajudar a sobreviver e nos reproduzirmos.

Se na base da biologia evolutiva está o interesse próprio do indivíduo, como chegámos a regras cujas vantagens colectivas só se conseguem perceber depois de aplicadas?

Teria sido útil lembrar-me que Matt Ridley, para além de escrever a Rainha de Copas, também escreveu "The origins of virtue", em que tenta explicar como, do ponto de vista da biologia evolutiva, podem ter surgido regras sociais cuja origem biológica nos parecem difíceis de explicar.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Criação de riqueza não é apropriação de riqueza

Elon Musk terá sido a primeira pessoa cuja fortuna foi avaliada em mais de um bilião de dólares na notação portuguesa (ou um trillion na notação americana).
Pelo que li, isso incomodou muita gente. No entanto, penso que muitos dos argumentos normalmente invocados para condenar uma fortuna desta dimensão não fazem grande sentido, pelo menos do ponto de vista económico.
O único argumento de fundo com o qual consigo concordar, ainda que apenas parcialmente, é o de que pessoas extraordinariamente ricas podem constituir um risco para a democracia. Quem controla quantidades gigantescas de capital dispõe inevitavelmente de uma enorme capacidade de influência, influência essa que não resulta de qualquer escrutínio democrático.
Esse argumento tem alguma consistência histórica. No início do século XX, quando os grandes capitães da indústria americana, aqueles que povoam o imaginário popular de cartola e charuto, concentravam um poder económico sem precedentes, o Presidente Theodore Roosevelt lançou uma ofensiva política e jurídica contra os grandes monopólios, recorrendo à legislação antitrust para desmantelar alguns dos maiores conglomerados da época.
E convém recordar que Roosevelt não era propriamente um "perigoso esquerdista". Era um republicano conservador que acreditava profundamente no capitalismo, mas também na regulação dos monopólios, na proteção dos consumidores, na conservação ambiental, na fiscalização das condições de trabalho e na intervenção do Estado sempre que o interesse público o justificasse.
Fora este argumento, porém, vejo poucos motivos sólidos para condenar a existência de fortunas como a de Musk. Pelo contrário, encontro vários argumentos a favor.
Comecemos pela origem dessa riqueza.
Ao contrário do imaginário popular, Musk não possui um bilião de dólares depositado numa conta bancária. Muito pelo contrário. Enquanto empresário e investidor, a maior parte do seu património encontra-se imobilizada nas participações que detém nas suas empresas.
Nem a Tesla nem a SpaceX distribuíram dividendos aos seus acionistas. Durante anos, a Tesla reinvestiu praticamente todos os lucros na expansão do negócio e a SpaceX continua a consumir enormes quantidades de capital para financiar o seu crescimento e os seus projetos tecnológicos.
Então porque é que Musk "vale" tanto?
Porque os investidores acreditam que essas empresas produzirão, no futuro, fluxos de caixa muito superiores aos atuais. Em boa medida, o valor de mercado dessas empresas representa uma aposta coletiva de que elas terão um papel determinante nas próximas décadas.
Estas empresas possuem relativamente poucos ativos físicos quando comparadas com empresas industriais tradicionais. O seu principal ativo é o conhecimento, a tecnologia, a capacidade de inovação e a concentração de capital humano altamente qualificado. Em larga medida, a valorização de Musk corresponde ao valor que o mercado atribui à sua capacidade de criar empresas inovadoras, atrair talento e mobilizar investidores.
Isto distingue-o profundamente dos oligarcas russos ou dos cleptocratas de alguns países ricos em recursos naturais, que acumularam património através da captura do Estado ou da apropriação de riqueza coletiva. Os grandes magnatas tecnológicos criaram empresas que geraram valor económico novo. Não se limitaram a redistribuir, em seu favor, riqueza existente.
Repare-se que, em termos pessoais, nem sequer nutro especial simpatia por este tipo de figuras. São frequentemente pessoas extremamente competitivas, obcecadas pelo trabalho, pouco empáticas e com egos desmedidos. E os egos gigantescos nunca me despertaram grande admiração.
Mas essa é uma apreciação de caráter. O que aqui me interessa é a análise económica.
E, desse ponto de vista, é difícil sustentar a ideia, tantas vezes repetida nas redes sociais, de que a existência destas grandes fortunas explica a persistência da pobreza no mundo.
Não é por Musk ter criado a SpaceX, Bezos a Amazon ou Zuckerberg o Facebook que continuam a existir milhões de crianças sem acesso a condições de vida dignas.
A pobreza persiste sobretudo por razões como a cleptocracia, a corrupção, a guerra, a fragilidade institucional e a má governação, muitas vezes disfarçada sob a forma de populismo.
Existem vantagens em haver pessoas capazes de mobilizar enormes quantidades de capital?
Penso que sim.
Grande parte da inovação tecnológica exige investimentos colossais e de muito longo prazo. Desenvolver novos sistemas de mobilidade, como procura fazer a Tesla, criar uma indústria espacial privada, como pretende a SpaceX, ou desenvolver medicamentos revolucionários exige investimentos que ascendem a dezenas de milhares de milhões de dólares.
É precisamente aqui que surge um problema estrutural português.
Portugal sofre de um enorme défice de capital.
Ao contrário do que muitas vezes se imagina, há muito pouco capital disponível para financiar projetos empresariais verdadeiramente ambiciosos.
E convém distinguir riqueza ostensiva de capital transformador.
Riqueza ostensiva é haver meia dúzia de milionários que desfilam Ferraris, relógios de luxo e iates na marina de Vilamoura.
Mas três, cinco ou mesmo vinte milhões de euros representam muito pouco quando o objetivo é criar empresas de elevada intensidade tecnológica. Desenvolver um novo medicamento, construir uma fábrica de semicondutores, lançar uma constelação de satélites ou criar uma empresa de inteligência artificial capaz de competir globalmente exige frequentemente centenas de milhões ou mesmo milhares de milhões de euros.
É essa escala de capital que escasseia em Portugal.
Dinheiro "a sério" não é conseguir comprar um Ferrari. Dinheiro "a sério" é conseguir mobilizar recursos suficientes para impedir que as nossas melhores empresas sejam vendidas ao estrangeiro, financiar sucessivas rondas de investimento em empresas tecnológicas ou transformar investigação científica em empresas globais.
Como esse capital praticamente não existe, o investimento acaba por concentrar-se em atividades pouco intensivas em tecnologia; pastelarias, alojamento local, restauração ou frotas de Uber. São negócios perfeitamente legítimos, mas que dificilmente conseguem gerar salários elevados, ganhos significativos de produtividade ou empresas líderes à escala mundial.
O resultado está à vista: muitos dos nossos melhores profissionais acabam por emigrar, procurando desafios, financiamento e remunerações compatíveis com as suas qualificações, porque o ecossistema empresarial português, salvo raras exceções, simplesmente não dispõe da escala de capital necessária para os reter.
Naturalmente, uma cultura que tende a diabolizar a riqueza, alimentando frequentemente a inveja social e a suspeição perante quem cria grandes empresas, não favorece a acumulação de capital produtivo.
Isso explica uma parte do problema, mas não o explica por completo.
O insucesso de muitas políticas públicas, os incentivos errados transmitidos ao mercado, o triunfo de alguma demagogia política, o excesso de assistencialismo e a incapacidade das nossas elites para pensarem estrategicamente o desenvolvimento económico terão, provavelmente, um peso ainda maior.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Uma longa, longa história

Jorge Moreira da Silva era, na altura, ou ministro ou secretário de Estado, não me lembro, com a tutela da área da conservação da natureza e falou com o ICN para se fazer um programa para levar as escolas às áreas protegidas, tendo como modelo a semana de praia e a semana de neve da escola europeia, onde estudaram os filhos, quando foi deputado europeu e talvez outras coisas.

Por acaso, eu era o director de serviço do ICN com tutela na educação ambiental e tinha 30% dos meus irmãos a viver em Bruxelas, em instituições várias da União Europeia, pelo que conhecia os programas que serviram de modelo, percebendo rapidamente o que se pretendia.

Desenhou-se um programa cujo objectivo era levar todos os portugueses a uma área protegida, para uam experiência positiva com a conservação da natureza, durante o seu percurso escolar.

Escolheu-se o oitavo ano, onde a ideia parecia encaixar melhor.

Andámos a avaliar dormidas, alimentação e transporte, os grandes custos envolvidos, para ter uma ideia do que poderia ser o custo de um programa desse tipo e de como o baixar para o trazer a níveis suportáveis, acabando por nos fixar num modelo que pressupunha três dias e duas noites de dormida.

Era clarinho, clarinho, clarinho que o programa tinha de ser enxertado nas escolas, feito a partir do ICN nunca teria pernas para andar.

Também era claro que o elemento central eram os professores, não os professores em abstracto, mas cada professor que se mete em coisas destas, que são a minoria que faz a escola fazer coisas de que os miúdos se lembram daí a uns anos.

Sendo assim, o factor chave era haver professores em número suficiente para que isto fosse sendo feito, o que aconselhava opções que não excluíssem professores: a ideia era levar os alunos a uma área protegida durante três dias e duas noites, sendo indiferente que fosse para fazer surf no Sudoeste Alentejano com os professores de educação física, visitar mamoas em Castro Laboreiro com professores de história, ou qualquer outra motivação daquele professor em concreto.

Explicou-se que se tratava de transferir recursos das zonas mais ricas, onde está a maioria dos alunos, para zonas menos ricas, onde estão a maioria das áreas protegidas, criando actividade económica em época baixa e durante a semana, excluiu-se de pagamento os alunos apoiados pela acção social e disponibilizámos apoio para encontrar patrocinadores para as visitas (sempre me pareceu evidente que seria fácil ter os cafés Delta a apoiar a escola de Campo Maior, por exemplo).

Tudo isto borregou numa questão de princípio do ministério da educação: o programa acabava por poder custar às famílias qualquer coisa como uns vinte ou trinta euros (repito, por deslocação, alojamento duas noites e alimentação três dias) e isso era inaceitável porque o ensino em Portugal era gratuito, não se podia pedir dinheiro nenhum às famílias dos alunos.

Sempre que tive oportunidade, fui tentando levar esta ideia a um ponto de concretização que ajudasse ao seu crescimento progressivo (no ICN chegou a haver dois ou três anos em que se fizeram visitas, num programa que pega nesta ideia, coordenado por um grande especialista em educação ambiental, mas nunca funcionou porque se foi pelo caminho fácil de usar infraestruturas das áreas protegidas (sem condições adequadas), com acompanhamento de funcionários das áreas protegidas (que, evidentemente, não só não chegavam para as encomendas, como desresponsabilizavam totalmente as escolas e os professores), tendo o programa morrido de morte natural, rápida e indolor, felizmente).

Nunca consegui chegar a uma aplicação concreta, nomeadamente na Montis, mas recebi há pouco a informação de que um programa com a mesma designação - Escolas na Natureza - vai ser apoiado pela fundação EDP.

Desconheço em absoluto o conteúdo da proposta que a Montis fez neste concurso, mas neste momento isso não me parece o mais importante, o relevante é que a ideia continua viva e ainda verei o país, não o ICN, mas o país, a executar um programa que leve, no espaço de uma geração, todos portugueses a passar por uma área protegida.

Espero que nessa altura se lembrem que foi Jorge Moreira da Silva que lhe deu o empurrão essencial.

domingo, 28 de junho de 2026

Um estranho magnetismo

 Um dia destes, depois de eu ter feito uns comentários favoráveis à coerência e consistência estratégica que os EUA têm vindo a demonstrar na guerra com o Irão (que dois artigos de Bernardo Ribeiro da Cunha me ajudaram a nomear, falando da vitória da contenção), um amigo meu disse ironicamente qualquer coisa sobre o meu apoio a Trump.

Acontece que reconhecer que a consistência estratégica dos EUA no Irão não tem qualquer relação com apoios ou desapoios a Trump.

As pessoas não são indiferentes, não será igual estar Trump ou Obama a tomar decisões nesta guerra, mas eu não acho que os governantes sejam inteiramente livres nas suas decisões, nem Trump, nem mesmo Khamenei, Putin ou Xi Ji Ping, todas estas pessoas, e mais as que governam países democráticos, como Trump ou Nethanyahu, tomam decisões dentro de contextos sociais e políticos que limitam a sua vontade de fazer isto ou aquilo.

A doutrina de contenção, para usar a expressão de Bernardo Ribeiro da Cunha nos artigos que citei, é visível na intervenção na Venezuela (Maduro é removido, mas não se mexe mais que o necessário para que o regime se alinhe com os interesses ocidentais), em Cuba (não há intervenção directa, mas um dos efeitos da mudança Venezuela é a capitulação do regime cubano que as reformas apresentadas pelos seu presidente representam) ou no Irão, não são possíveis de ser desenhadas e aplicadas porque um dia o presidente dos EUA, seja ele qual for, acordou e decidiu isto ou aquilo.

Atribuir a Trump a decisão final de lançar uma ofensiva no Irão é razoavelmente correcto - no topo do processo de decisão ele poderia decidir o contrário - mas pensar que é Trump que orienta todo o processo de decisão que culmina na sua decisão final, é achar que os governos mandam muito mais do que realmente mandam.

Achar que Trump pode acordar um dia e dar ordens para invadir o Canadá, sem que chefias militares se demarquem, se demitam, etc., etc., etc., é ter uma visão cesarista do poder que não entendo.

Há razões de Estado, que uns consideram certas, outras erradas, bem profundas para que a decisão de atacar o regime iraniano tenha surgido, ganho consistência, tenha sido planeada por todo um aparelho militar e executada de forma irrepreensível, independentemente do presidente que ocupa a Casa Branca em cada momento.

Achar que Trump é um génio que pensa e leva a cabo a alteração geoestratégica que está a ocorrer no Médio Oriente (com efeitos reais nas posições dos países do Golfo em relação a Israel e, mais ainda, no reconhecimento formal que o Líbano acabou de fazer da existência do Estado de Israel), ou que é um completo idiota narcisista que decide coisas tontas e evidentemente estúpidas como atacar o Irão, é atribuir-lhe poderes quase sobre-humanos que ele não tem.

Trump é simplesmente o presidente dos Estados Unidos, um homem comum que temporariamente ocupa um cargo político importante, não é totalmente irrelevante, claro, mas está muito longe de ter a liberdade de pensar, programar e executar uma intervenção geoestratégica como a que os Estados Unidos estão a executar na América Latina e no Médio Oriente.

Olhar para os resultados dessa estratégia, sendo um leigo como eu, e achar que as coisas estão a correr bastante bem para o Ocidente, não implica, da minha parte, qualquer alinhamento com Trump e afins.

sábado, 27 de junho de 2026

A carreira e a família

"a pessoa que está em casa e sem atividade profissional não ter uma fonte de rendimento que lhe permita ter a escolha de abandonar o lar, se necessário. Independentemente do resto, isso é, objetivamente, um handicap. Alguém que nunca esteve no mercado de trabalho (ou que está há anos fora dele) e que queira sair de uma relação está numa situação de inferioridade evidente".

Este comentário é muito interessante e vale a pena olhar para ele com atenção, até por ser uma ideia comum, a de que a gestão familiar é um handicap profissional que desvaloriza profissionalmente uma pessoa, pelo que o membro da família que opta para dedicar o seu tempo à gestão familiar está numa situação de inferioridade evidente.

Note-se que este argumento é válido para quem dedique tempo a qualquer outra coisa que não a sua carreira e o seu curriculum, sendo um argumento que parte do princípio de que as carreiras profissionais são evoluções lineares de acumulação de vantagens futuras, o que está longe de ser indiscutível.

Para algumas carreiras, com carreiras académicas que vivem da acumulação progressiva de "pontos" reconhecidos por estruturas rígidas de progressão, o argumento é bastante válido.

Para muitas outras carreiras, pelo contrário, a experiência da gestão familiar pode ser uma grande vantagem profissional, como em carreiras de vendas, por exemplo.

O mais interessante, no entanto, é a dificuldade em sair da visão baseada na vantagem individual, face ao contributo para a família e, por essa via, para a sociedade.

Esse é o ponto central, famílias estruturadas e razoavelmente estáveis em prazos relativamente longos representam um grande activo social.

Uma coisa é reconhecer-se o custo de não ter uma carreira linear, com mudanças de percurso, com alterações de funções e todas essas coisas que trazem incerteza ao futuro profissional de qualquer pessoa (o que não quer dizer que não tragam também vantagens em muitas carreiras) e, consequentemente, reconhecer que a opção pela dedicação do tempo e capacidades à família poder ter um custo futuro relevante para quem faça essa opção, outra coisa é concluir que para evitar essa desvantagem a melhor solução é nunca fazer a opção de valorizar mais a família que a carreira.

Reconhecer esse custo pode significar que vale a pena discutir as políticas públicas que existem actualmente e penso que a forma como tratamos o desemprego é uma boa analogia.

Quando alguém fica desempregado, tem direito a apoios sociais e a políticas públicas de retorno à actividade profissional, incluindo formação profissional e outro tipo de apoios que facilitam a reconversão profissional, quando é caso disso.

Por que razão essa opção não existe para quem queira dedicar-se à família?

A verdade é que há valor social na gestão familiar, na presença junto dos filhos, etc., e também é verdade que as circunstâncias de cada família mudam com o tempo (por exemplo, há apoios que só existem enquanto há filhos até aos dois anos, há outros que só existem enquanto há filhos até aos doze anos, o que significa que é possível desenhar apoios para as diferentes fases das diferentes famílias, sendo a existência ou não de filhos uma questão relevante).

Sem reconhecer esse valor, incluindo no momento da contratação posterior, reconhecendo a gestão familiar como dando competências que dificilmente podem ser negadas, é claro que é difícil desenhar políticas que valorizem as famílias.

E as pessoas, querendo ou não, acabem empurradas para modelos familiares socialmente sub-óptimos.

A oposição ideológica à ideia de que escolher a dedicação à família como uma opção profissional legítima e razoável, parece-me a maior dificuldade nesta discussão.

A invasão de "sociais-democracias"

 

Vem este apontamento a propósito de uma entrevista televisiva de ontem, na qual, uma vez mais, uma senhora do Livre se proclamou de esquerda, social-democrata, ecologista, etc, etc. 

Recordei, então, um certo desembarque meu em Santa Apolónia, nos primeiros dias de Junho de 2011, seguido de uma caminhada até ao Terreiro do Paço, onde fui dar de caras com uma "arruada" do PSD. Estava-se em plena campanha eleitoral, Sócrates tinha levado o País à bancarrota e Passos Coelho, à frente do PSD, abalançara-se à imbricada missão de nos reerguer.

Um aparte: tenho de Passos Coelho uma impressão sobejamente positiva. A circunstância  de Massamá forever contribui para tanto. Penso que reagiu desastradamente à habilidade de Costa - a Geringonça - e perdeu com isso. Politicamente, e na perspectiva partidária vigente nesta pobre e achincalhada Nação. Mas tenho-o na conta de um verdadeiro social-democrata, um genuíno defensor da social-democracia em que acredito.

Ainda outro aparte: fui encontrar, nas hostes acompanhantes de Passos, um antigo administrador de uma empresa de que eu era advogado avençado. - Então, você por aqui? - Sim, imagine que esta malta nos quer tirar na reforma, que desgraça... - Nem retorqui. Para quê? Como era possível o cavalheiro não ter percebido o que vinha aí?! E segui caminho, ainda apanhando no retrato Passos Coelho imergindo na multidão.

Houve eleições, logo após, e o resto todos sabem. A Esquerda - então jamais social-democrata - tomou conta dos megafones e tudo fez para, em seu proveito, escangalhar o pagamento dos árduos encargos de uma herança socrática em que o passivo descaradamente ultrapassava o activo.

...

Assim tornamos ao presente, em que é devida uma palavra de louvor ao PCP, tão-só pela sua congruência: ainda é comunista! Os antigos leninistas, estalinistas, trotskistas, unidos e manhosos, são agora... sociais-democratas!!!

Evidentemente, um país dotado de educação política rir-se-ia, apenas. Mas Portugal não é bem isso. O recado vai subliminarmente passando, mesmo sendo transparente que o comportamento político desses "sociais-democratas" de fresca data em nada foi modificado. Vale dizer: barulho, demagogia, as tramoias que inventam, a rua (que não lhes pertence) como palco da sua política maniqueísta, os chamados "temas fracturantes" de que se socorrem, como meio de manter a tensão social.

Quem se desse ao trabalho de ir à fonte... conheceria que a questão vem do tempo do "socialismo utópico" versus "socialismo científico", dos mencheviques massacrados pelos bolcheviques, do pacto de não agressão celebrado entre Hitler e Estaline.

Tal qual Karl Marx dogmatizou o programa da evolução histórica, e relativizou os argumentos utilizáveis para alcança a sua sociedade-modelo.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Um comunicado

Tencionava (na verdade, tenciono, o que nem sempre se materializa depois), ainda voltar à discussão sobre a prevalência das opções individuais sobre as opções familiares, mas chamou-me a atenção o comunicado conjunto dos Estados Unidos e grande parte dos países do Golfo Pérsico.

Primeiro, o Irão deixou de falar de Gaza, dos palestinianos e agora são estes países árabes que, nos limites da ambiguidade diplomática, vêm dizer que é preciso virar a página, ao mesmo tempo que Israel vai eliminando dirigentes do Hamas, sem grande controvérsia, enquanto o Hamas se recusa a depor as armas.

Depois estes países árabes não falam da ameaça sionista mas da ameaça iraniana, deixando claro que contam com os Estados Unidos para se defender da ameaça iraniana.

Acrescentam ainda a necessidade de cessar-fogo no Líbano, que todos sabem que quer dizer que o Hezbollah deixa de se entretar a mandar rockets e mísseis para Israel, na prática, a forma de obter um cessar-fogo no Líbano é o Hezbollah deixar de atacar Israel, e isso representa uma viragem brutal do Irão, a verificar-se.

Por fim, falam da Síria e reforçam a ideia de que é preciso acabar com os grupos armados não estatais, o principal instrumento usado pelo Irão para impor alguma hegemonia da região.

Resumindo, eu não sei o que realmente se passa, o que sei é que o que se consegue perceber destes movimentos diplomáticos é que a relação de forças no médio-oriente parece estar a mudar e não é no sentido que o regime iraniano defendia até há muito pouco tempo.

O Livre prepara-se para governar...

É hoje notícia: Rui Tavares vai deixar a liderança do Livre. Mas esta doce sensação de alívio foi de curta duração. Tavares mantem-se como deputado e somente entrega a pasta da sua "Coordenação Nacional" à líder de bancada, Isabel Mendes Lopes. Do mal o menos, esta senhora tem demonstrado um bom trato pouco usual lá para aquelas bandas... Estas são as reviravoltas necessárias, no entender de Tavares, para o Livre deixar o papel de «partido de influência» e assumir as «funções governativas» que lhe competem.

É claro, ficamos sem saber se o Livre se arroga de tais predestinações por uma exponencial subida de votos a curto prazo, ou se lhe deu agora para namoriscar o PS. Entretanto, vai desacreditando a concorrência. Assim, o PSD trocou - na boa-fé do Livre... - o "não é não" por um "veremos caso a caso" e mesmo por um "sim é sim", se o impuser a sua voragem de aprovação de um diploma no Parlamento.

Como é apanágio da Esquerda, assim, em poucas palavras apenas, o povo português é insultado na sua inteligência. Como se a semana transacta o Chega não tivesse chumbado o "pacote laboral" e o PS, ontem mesmo, não tivesse viabilizado a "prestação social única" - com os votos contra do Chega...

Vale dizer, é evidente que o PSD tem de negociar à esquerda e à direita, se não quisermos que o Parlamento estagne e o Governo não governe. O que, de resto, não sucedeu com o PS de Costa, prostituído pelas cedências continuas à extrema-esquerda para se manter à tona. Oxalá Carneiro revele (como tem revelado) mais escrúpulos e seriedade...

No fundo, a Esquerda ainda detém o temível poder de manipular as mentes dos eleitores. De sempre fazer uso (e abuso) do "efeito flotilha". De passear a papoula (o opiáceo...) à vontade, agitando fantasmas e espicaçando contra os seus putativos inimigos. E entre estes não estará Kim Jung-un, que em discurso de Estado preconizou uma postura militar «mortal e destrutiva». Não, a Esquerda jamais enviará flotilhas para a Coreia do Norte, ainda que esta nos queira matar e destruir!


Quatro estações


"Havia diante de nós três meses compridos sem prala e sem mudanças. O calor varava a ramada sobre o pátio, e o banco a jardim que lá estava só lhe faltava crepitar e arder. Acho que era por se dar ao resperto como banco e não madeiro velho, que ele não se punha a fumegar. Vinha da mina uma água fria e saborosa, e ela só alegrava a mesa de Verão; o seu gorgolejar na treva de xisto da mina dava uma impressão de calma e abundância."

Agustina Bessa-Luís in "Dicionário Imperfeito".

Dizia-se antigamente que a meteorologia era a arte de prever o tempo depois de ele ter acontecido. Hoje, na era do excesso de comunicação, transformou-se numa filial do drama grego. Bastam dois dias de calor acima da média no centro da Europa para que os ecrãs se inundem de gráficos a vermelho-sangue e termos sonoros como “cúpula de calor” ou “génese de intempérie”. A avaliar pelo tom alarmista dos especialistas de serviço, o cidadão comum deveria trancar-se em casa, cobrir as janelas com papel de alumínio e esperar pelo pior. Chegou-se ao ponto — herança, por certo, de traumas pandémicos mal resolvidos — de sugerir o fecho de escolas por causa dum pico de temperatura. Só uma sociedade anestesiada pelo excesso de conforto e pela fobia do risco se pode dar ao luxo de querer parar a vida produtiva porque o termómetro decidiu lembrar-nos de que estamos no Verão.

Felizmente, a natureza humana ainda é mais forte do que o medo enlatado dos telejornais. O medo vende, promove audiências, sabemos bem. A imagem recente dos parisienses, imunes aos relatórios de salubridade, a refrescarem-se alegremente nas águas do Sena e nos fontanários públicos é o mais belo hino à bonomia. O povo sabe, por puro instinto, que o sol é vida. E entre o sacrifício do calor e o cinzentismo de uma existência enclausurada, a escolha é óbvia – têm é de aprender a nadar. Além disso, para desespero dos profetas da desgraça, o tempo continua a ter a audácia de ser imprevisível: anunciam-se infernos tropicais e acordamos com uma brisa agradável; promete-se a secura de um sol inclemente e para quinta-feira já anuncia a chuva. O tempo, no fundo, continua a gozar connosco — e ainda bem, porque isso faz dele a conversa mais sedutora e emocional dos nossos dias. Reparaste como as noites estão amenas?

Nós, por cá, temos a imensa fortuna de habitar uma geografia temperada, abençoada com quatro estações. Não sofremos a monotonia dos trópicos nem a rigidez dos polos. E depois, vivemos numa gigantesca varanda para um mar imenso, cuja disposição, mansa ou bravia, nos serve de espelho à alma. 

Temos a Primavera, que é um ensaio geral florido e promissor, onde a chuva e o sol se gladiam para anunciar os dias maiores, cada vez maiores. E depois explode o Verão, essa estação luminosa e sensual, onde os corpos perdem a vergonha, os tecidos encolhem e as esplanadas e praias se enchem num hino à frivolidade e às aparências. É um tempo excessivo, sim, mas deliciosamente vital. Mas a beleza do nosso cardápio climático é que a euforia nunca é eterna. O Outono chega sempre a tempo de nos recolher, acalmar para os deveres, preparando-nos para o fechamento que o Inverno exige. É na recolha do frio e das chuvas persistentes que a rotina produtiva se reorganiza — nas escolas, nas fábricas, nos escritórios. Sem excessos de distracções da rua, encamisolados, bem atabafados, somos empurrados para o interior, para uma introspecção necessária – o exterior já não brilha tanto. O Inverno é a democracia para os corpos desavergonhados da praia. É então que a tristeza que às vezes nos espreita de dentro (ou simplesmente o tédio), indisfarçável, não é um defeito de fabrico; é o solo fértil onde cresce a intimidade, a reflexão e o conhecimento. 

Os portugueses terão, por certo, imensos defeitos, e o nosso território não será o mais rico ou produtivo, antes pelo contrário. Mas temos a felicidade desta diversidade meteorológica, que as alterações climáticas não conseguem aplanar. O saldo joga sempre a nosso favor. Que venham as cúpulas de calor, os rios atmosféricos, as bicas de água e os dias cinzentos: enquanto houver quatro estações, haverá sempre uma razão para celebrar a vida na nossa varanda à beira-mar. 

Quanto ao mais, a cada dia basta o seu cuidado.

Publicado também aqui
Imagem, daqui

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Equívocos

"pôr um dos membros da família no centro, em vez de pôr a família no centro", É aquilo que qualquer liberal faz: põe o indivíduo ao centro, não o grupo do qual esse indivíduo faz parte".

Os comentários completamente despropositados de Luís Lavoura a propósito de questões marginais dos textos que lê são uma lenda na internet, sendo impossível acompanhar o nível médio de absurdo, delírio e desonestidade intelectual frequente (é preciso primeiro truncar o que os outros dizem, para conseguir encaixar um comentário aparentemente lógico e completamente delirante).

Este comentário, a propósito do costume de discutir a família partindo da ideia de que uma família é uma soma simples de indivíduos, evitando assim a discussão da família enquanto instituição formada por indivíduos livres, com certeza, mas com responsabilidades mútuas, é um bom exemplo de uma patetice sem grande utilidade a não ser esta, a de permitir realçar o erro de confundir o liberalismo com o individualismo.

Não é muito diferente da alegre ignorância da jovenzinha que, feliz pela sua inteligência e arejamento intelectual, resolve informar metade do seu partido que estão ali por engano, quem sabe é a menina, dizendo que liberal não é conservador.

O liberalismo clássico defende o indivíduo dos abusos do Estado, não põe o indivíduo num mundo em que não tem responsabilidades, pelo contrário, conhecendo a natureza humana, a responsabilização individual é central para que se consigam combater os abusos da intervenção do Estado na esfera individual sem os substituir por outros tipos de abuso.

Eu não conheço um único liberal que defenda o direito dos pais a maltratarem os filhos, os filhos são eles próprios indivíduos que têm direitos intrínsecos, mas também não conheço liberais que defendam a liberdade dos filhos não estudarem se não quiserem, antes de terem maturidade para fazer opções conscientes sobre o seu futuro.

Do mesmo modo, tirando uns quantos libertários (e, mesmo assim), não conheço liberais que não reconheçam o primado da lei e a consequente necessidade de instituições fortes que defendam a liberdade dos mais fracos dos abusos de poder do Estado, mas também dos abusos dos mais fortes (tenho ideia de que as mais eficazes leis anti-monopólio foram criadas e aplicadas com forte apoio liberal, dentro da lógica de limitação do abuso da posição dominante).

A socialização das crianças tem três caminhos centrais: 1) é feita sem regras nem instituições fortes, substituídas por gangues informais, prevalecendo a lei do mais forte, sem instituições que limitem o abuso sobre os mais fracos, que é o modelo dos miúdos de rua dos grupos sociais mais miseráveis; 2) é feito pelas famílias e pelo senso comum das comunidades em que se integram; 3) é feito pelo Estado.

A realidade concreta de cada comunidade está, de maneira geral, numa mistura, em diferentes proporções, destes três caminhos.

A senhora que feliz com a sua superioridade moral entende que liberal não é conservador, muito provavelmente, quando chega a altura de discutir o peso relativo destes três caminhos em situações concretas, diria, como Luís Lavoura, que o indivíduo tem prevalência sobre o grupo, portanto, o ideal é investir em creches para que os pais não sejam prejudicados pelas suas obrigações para com os filhos, e em lares de terceira idade para que os filhos não fiquem esmagados pelos cuidados de fim de vida dos pais.

É este o caminho que tem sido seguido, o da progressiva diluição da importância institucional das famílias, em especial das suas responsabilidades colectivas para com cada membro da família, substituindo a "caridadezinha" pelos direitos sociais individuais, assegurados, naturalmente, pelo Estado.

Não faço ideia se este caminho é inevitável, em grande parte será, pelo menos enquanto os estados de bem estar não falirem ao descobrir que o Estado é muito menos eficiente a prover serviços sociais de proximidade que as famílias e as comunidades em que existem.

O progressivo aumento do poder do Estado na educação e velhice, libertando os indivíduos do fardo familiar, tem vindo a permitir uma aparente melhoria do apoio social, argumenta-se, o que não deixa de ser um bocado estranho porque não se consegue perceber por que razão se diz que as crianças estão melhor nas creches que em casa (ou numa distribuição diferente entre o tempo da creche e da família), não se percebe com que base se diz que os velhos estão muito mais protegidos na sua fragilidade, nem se percebe como há sítios do mundo em que os números de sem abrigo e dependentes é impressionante face ao passado (não sejamos demagógicos, boa parte do aumento deste tipo de problemas resulta do facto das pessoas mais frágeis morrerem mais tarde nas actuais circunstâncias).

As discussões polarizadas, nesta matéria, são completamente inúteis, cada circunstância aconselha uma resposta que pode ser diferente da que é dada à pessoa ao lado, o que não faz sentido nenhum é não reconhecer o papel central da família (seja qual for o seu modelo concreto) na resposta social de proximidade.

Ou, respondendo à menina que acha que liberal não é conservador, o que não faz sentido é confundir um modelo liberal de sociedade com modelos individualistas, fortemente condicionados pelo wokismo dominante, que tem medo de tudo que vagamente possa estar relacionado com contextos institucionais que representam milhares de anos de experiência da humanidade.

Do conservadorismo também se pode dizer que funciona e faz falta a Portugal, mesmo a um Portugal liberal.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Donas de casa

Aqui e ali (ler Patrícia Fernandes, no Observador, sobre este ou outros assuntos, quase sempre se lê com muito proveito) aparece a discussão sobre algum tímido regresso da ideia de que uma família pode ser melhor quando há uma dona de casa (ou dono de casa, como John Lennon, durante cinco anos), isto é, alguém tem como função principal optimizar o funcionamento da família enquanto tal.

O ponto de vista dominante pode ser visto neste comentário encontrado por aí e cuja autoria é irrelevante para este post, a sua utilidade é mesmo ser uma ideia comum "Quando se romantiza a mulher sem rendimento próprio, sem carreira, sem descontos, sem conta independente e sem rede, não se está apenas a falar de “escolhas de vida”. Está-se a falar de vulnerabilidade. E essa vulnerabilidade é terreno fértil para a violência económica: controlar o dinheiro, impedir que ela trabalhe, decidir o que ela pode gastar, fazê-la pedir autorização para tudo, deixá-la sem meios para sair".

É um ponto de vista muito comum, mas tão ao lado das questões centrais que impede qualquer conversa racional, ao pôr um dos membros da família no centro, em vez de pôr a família no centro, como fazem as pessoas que querem discutir as vantagens de haver "uma dona de casa" na família.

Em primeiro lugar, não se trata de romantizar nada, as famílias não são o paraíso, é onde ocorre a esmagadora maioria dos abusos sobre crianças, sejam eles sexuais, violência física, manipulação psicológica e emocional, é onde ocorrem os conflitos mais irredutíveis (é por isso que se diz que as guerras civis são as mais violentas e destrutivas de todas as guerras), é onde se manifestam as mais estranhas relações de poder e submissão entre pessoas individuais supostamente livres e autónomas, é onde ocorrem as mais humilhantes destruições de personalidades de terceiros, não há nada de romântico nas famílias, as famílias são espaços de organização social que tanto correm bem, como correm mal e, quando correm mal, podem correr mesmo, mesmo muito mal.

Ouço a história como sendo atribuída ao Cardeal Cerejeira que, quando ouvia dizer que havia uma família em que os irmãos se davam muito bem, perguntava sempre se já tinham feito partilhas.

As famílias têm é a grande vantagem de ser a grande escola de socialização e realização pessoal ao longo da história da humanidade, de tal forma que, seja qual for a cultura, são muito raras as sociedades com algum sucesso que não reconhecem o valor fundamental da família, seja em contratos formalmente validados pela sociedade, como o casamento, seja em concepções de honra mais informais, que atribuem à família o direito de excluir, às vezes matar, os membros que, pelas suas opções individuais, põem em risco o que se consideram pilares essenciais da família.

Desde sempre essa forma de organização dos grupos sociais tem uma tensão latente, por vezes insuportável para alguns, em relação à liberdade individual (há uns pândegos que se espantam pela importância que a igreja católica confere ao sexo e às questões de cama, isso apenas acontece por falta de atenção às outras culturas e sociedades, onde os instrumentos de coesão social, o que implica alguma partilha de valores, dão importâncias semelhantes, embora de formas muito variadas, aos mesmos tipos de assunto, por terem uma importância fundamental na base da coesão dos grupos familiares).

As famílias não existem de forma monolítica, as famílias têm formas imensamente diversificadas, quer entre diferentes culturas, quer ao longo do tempo na mesma família, regulando duas questões relevantes: a socialização das crianças e a transmissão de património (isto é, de meios de sustento da família, até ao advento das sociedades baseadas em serviços, isto é, às sociedades que assentam na síntese da amónia).

A ideia expressa acima de que o rendimento é uma questão individual e não do colectivo da família é uma ideia recente, não era habitualmente assim e o que não faltam são exemplos de milhares e milhares de famílias em que todo o dinheiro ganho pelos homens no seu trabalho era entregue à mulher que era responsável por gerir a casa.

Se dúvidas houvesse, basta ver a quantidade de literatura do século XIX em que as desgraças que caem sobre a família são imputadas à incapacidade da mulher gerir bem os recursos da família, independentemente de não fazer qualquer trabalho remunerado.

Na minha família mais restrita, a minha mulher resolveu ser dona de casa durante algum tempo, primeiro para acompanhar a doença da mãe, ainda antes de casarmos, depois para apoiar o pai, depois para apoiar as duas mais velhas, até que à terceira filha resolveu retomar a sua actividade profissional remunerada.

Mais tarde, fui eu que passei a estar em casa mais tempo, pedindo uma licença sem vencimento que me permitia trabalhar a partir de casa, quando sentimos que as coisas poderiam não correr bem com a evolução de alguns dos nossos filhos a poderem fugir do padrão que entendíamos ser melhor.

Nunca, em nenhum momento, senti que havia o meu dinheiro e o da minha mulher, sempre tivemos contas diferentes, mas o dinheiro sempre foi da família (durante anos, num sentido alargado, dadas as dívidas que tínhamos para com o resto da família alargada).

Há tempos vi um estudo (confesso que não dou demasiada importância a este tipo de estudos, a menos que haja muitos estudos a dizer consistentemente o mesmo) em que se avaliava o grau de satisfação de pessoas, ao fim de cinco anos, depois de terem decidido divorciar-se ou não, quando estavam infelizes com as suas relações familiares.

Contra o que para mim seria de esperar, o grau de "infelicidade" era maior ao fim de cinco anos nos que, insatisfeitos com a sua relação familiar, tinham decidido divorciar-se face aos que, mesmo assim, tinham decidido manter-se casados.

O que é coerente com o facto que Patrícia Fernandes tem referido sobre o grau de insatisfação das mulheres hoje, em relação a umas décadas atrás.

Aparentemente, o ganho real e justo no campo dos direitos individuais das mulheres nem sempre deu como resultado uma melhoria da sua qualidade de vida (ainda hoje li uma coisa qualquer num jornal sobre o facto de haver cada vez mais famílias menores, em especial, de um ou dois membros e, sem grande surpresa para quem tenta ter uma visão menos emocional da natureza humana, o tempo médio das mulheres que vivem sozinhas é substancialmente maior que o tempo médio dos homens que vivem sozinhos (não, não me vou pôr a fazer piadas sobre a fragilidade dos homens que os impede de tomarem conta deles próprios)).

Ou seja, muito mais que uma discussão sobre direitos individuais, a discussão sobre as novas donas de casa é uma discussão sobre modelos familiares e sobre a clássica dificuldade em conciliar a necessidade de socializar crianças e transmitir património com um mínimo de conflitualidade, e a liberdade de cada um de nós se estar nas tintas para os outros.

Pelo menos, é o que me parece, a mim que não costumo passar muito tempo a pensar no assunto, nem a estudá-lo, mas sobre o qual leio sempre que me surge oportunidade.

Nota final sem qualquer relação com o post.

Recentemente morreu Abdullah Ibrahim, antes conhecido como Dolar Brand. Vi o seu obituário no Público, feito por Lucinda Canelas, que fala mais de apartheid que da sua música. A sensação com que fiquei é que Lucinda Canelas não tem grande interesse na sua música. Eu também não tenho, não é bem o tipo de música que oiça, mas sugiro que ouçam isto, eu sei que demora quase um quarto de hora, e não desistam logo, é o meu obituário do senhor, que me parece mais que suficiente.

terça-feira, 23 de junho de 2026

A população e o fundo soberano

 Dando uma vista de olhos pelo que se vai publicando dos meios mais formais aos mais informais, dois assuntos vão aparecendo nestes dias: o relatório sobre a população, do INE, saído ontem, e as referências e discussões sobre um fundo soberano de que Luís Montenegro falou no Domingo.

Os dados da população são mesmo muito relevantes, quer porque correspondem a uma alteração substancial nos métodos de produção de informação do INE, quer por mostrarem um aumento de população surpreendente, para quase onze milhões e meio de residentes, quer ainda por acabar com as dúvidas relevantes sobre o que aconteceu em matéria de migração nos últimos anos, com fluxos migratórios anuais, repito, anuais, de praticamente 3% em 2022 e 2023, e 2% em 2024, duplicando a população estrangeiro em Portugal de 7% para 14%, mais coisa menos coisa.

Ter mais 800 mil pessoas em menos de cinco anos, tem evidentemente impacto quer nos serviços públicos (saúde e educação à cabeça), quer nos mercados, por exemplo, habitação.

E como os fluxos migratórios são relativamente concentrados geograficamente, têm um peso ainda maior em algumas regiões, por exemplo, no Algarve.

Acresce que estes fluxos migratórios não correspondem a distribuições normais de idade e sexo, havendo, inevitavelmente, uma sobre representação de homens em idade activa (para não me chatearem com afirmações sem dados, aqui vai a pirâmide etária e por sexo que compara 2021 com 2025).

Para além destes aspectos mais sociais, chamemos-lhes assim, o aumento de população activa representa um aumento do PIB potencial, corresponde a um activo económico formidável.

Há pois muitas razões para falar deste assunto, para o discutir, incluindo a absoluta irresponsabilidade de políticos e jornalistas que tentaram, de todas as maneiras e feitios, condicionar a discussão sobre os efeitos reais das políticas migratórias adoptadas pelo PS.

Já sobre o fundo soberano, não se sabe nada, trata-se de uma afirmação no ar, sem qualquer base informativa concreta, feita por um político.

E, no entanto, apesar de ser uma mão-cheia de nada de que ninguém sabe nada, tem vindo a ter tanta importância no debate público como os dados do INE, com imensos comentadores cheios de certezas sobre uma matéria sobre a qual não sabem, nem podem saber, nada, a não ser um nome que, sem conteúdo, não diz nada.

Sim, somos pobres, no debate e no dinheiro (quando comparados com os países mais ricos, no conjunto do mundo nós estamos do lado dos ricos), suspeito que seja mesmo por responsabilidade nossa, em especial de uma imprensa que se encanta com uma afirmação vazia de um político, ao ponto de a tratar ao mesmo nível que informação relevante e nova sobre nós e a nossa realidade.

Tenho pouca veia para este modelo especulativo de conversa sobre hipóteses, se quisesse também me punha aqui a especular que Ventura intuiu que o negócio político da imigração está em perda e virou-se para a tarefa de redireccionar o ressentimento social contra os ricos, assinalando-o com o voto contra o pacote laboral, como forma de capturar o eleitorado que resta na esquerda, mas qual é mesmo o interesse deste tipo de especulações?


A Restauração, finalmente

Temos connosco a Monarquia, por fim! A GN(R?) aderiu ao Movimento. E, logo para mostrar serviço, deteve um gang que, munido de martelos, ass...